domingo, 16 de fevereiro de 2014

Silenciosos




Tiago andou pela rua suja e contemplou a paisagem tristemente. Odiava sua vida. Só aconteciam-lhe misérias, ora essa! Imagine que ele parou seu carro em um local proibido, e este fora guinchado! Precisaria agora tirar de seu salário, que era baixíssimo demais para sua posição. A notícia de Tiago já estava à solta e todos os seus amigos e parentes conversavam sobre tal infortúnio. Como queria ter vida de “ricasso”, ele dizia.
Mas Judith, tia de Tiago, ao ouvir a história apenas bufou. Que miséria o quê! Ela nem possuía um carro para ser guinchado! Vida miserável era a dela mesmo: divorciou-se, seu vaso preferido fora quebrado, seu gato fugira e ainda derramou suco de uva em seu caríssimo cashmere importado! Queria mesmo era ter a vida dos jovens: calma e relaxada. Ou talvez ser uma das atrizes da televisão, sempre arrumadas e sorridentes! Ela contou também para todos, e todos contaram para seus amigos e parentes.
Daniel também ouviu a história e irritou-se ainda mais. Ora essa, ele havia perdido o bilhete da megassena - agora nunca saberia se havia ganhado dez milhões de reais! Daniel havia pintado seu cabelo um tom mais claro do que o normal e cortara o rosto ao se barbear! Ele era o com a vida mais mísera e sorte inexistente! Agora, não poderia ir para seu trabalho, pois todos o encarariam e ririam dele. Contou a todos de sua desgraça, e todos disseram "oh" e "ah" enquanto ele retirava o curativo de cada corte que inferira.  Arde muito, ele reclama . Ah, como queria voltar ao tempo em que era estudante! Ah, como queria ser milionário, com uma conta de dez milhões!
Felipe, filho de Judith, ouviu a história de todos com pesar. Pobre deles. Sua vida não era boa e nem ruim, ele dizia. Tinha tudo o que quis, não precisou trabalhar para comer e ter teto. Seu pai e sua mãe não estavam mais casados, então ele migrava de uma casa para outra - mas até que era legal ter duas casas, apesar de ser um tanto cansativo; não entendia bem a matéria da escola e, por isso, era motivo de deboche; não tinha muitos amigos, apenas um bichinho de pelúcia que sua mãe lhe dera aos cinco anos; sentia uma melancolia inexplicável e sentia-se triste às vezes. Besteira! Por que chorar? Por que doer? Por que não conseguia ser suficiente, estar bem? E, em meio a um bando de vidas miseráveis e desafortunadas, ele se entrega ao fundo do rio, onde o silêncio o compreende.





                                                                                                  Thalita Cardoso

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