domingo, 23 de março de 2014

Emplastro




Uma pílula antes do almoço, outra depois do jantar
O médico receitou-me um remédio para a enxaqueca.

Uma pomada mal cheirosa nos machucados
O médico receitou-me um emplastro para a dor.

Uma cápsula de doze em doze horas
Foi-me receitada, para a insônia.

Dois tipos de cápsula e um utensílio engraçado
Uma farmacêutica disse que aliviaria minha asma.

Duas doses de um líquido forte e amargo
Um amigo sugeriu-me automedicação para os problemas.

Dois mililitros de um líquido asqueroso
O médico receitou-me um remédio para a ansiedade.

Ainda aguardo o remédio para a felicidade
E quando ele será vendido nas drogarias.
Trará-me ele total e verdadeira alegria?
Ou será como mais um daqueles emplastros malditos
Que tudo o que fazem é remediar o inevitável;
Que, um dia, todos esses desconfortos
Hão de atormentar a minha alma e o meu ser.

Diga-me, senhor médico
Há algum emplastro para a dor?
Para o sofrimento prévio?
Se há, prescreva-me todos.
Hei de tomá-los com fervor.

O que há em minhas estantes
Além de caixas de remédios,
Frascos vazios, cápsulas usadas
Embalagens abertas?

Um grande choque de realidade
Foi o que o médico me causou quando disse que
Eu era imune aos efeitos dos meus remédios.
"Muito disso, muito daquilo em muito tempo", ele disse.

Não há emplastros malditos que curem minha angústia.
Não há emplastros malditos que deem jeito na saudade.
Não há emplastros malditos que funcionem do mesmo modo que antes.
Enxaqueca, crises de asma, insônia, ansiedade e pupilas dilatadas.
Estes remédios malditos tomaram conta de mim,
Muito antes do que achei que tomariam.
Muito antes do que eu gostaria que tomassem.





                                                                        Thalita Cardoso

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